Tudo começou antes mesmo de a internet comercial existir por aqui. O protagonista inicial não foi uma empresa privada, mas a comunidade acadêmica brasileira, especialmente a FAPESP.
Em 18 de abril de 1989, Jon Postel, então responsável pela coordenação dos domínios de primeiro nível da Internet, delegou o .br ao grupo que trabalhava com redes acadêmicas na FAPESP. Naquele momento, a Internet ainda não havia chegado oficialmente ao Brasil. O .br era utilizado para identificar máquinas de instituições acadêmicas conectadas a redes como BITNET, HEPnet e UUCP. Os poucos registros existentes eram feitos manualmente.
Em 1991, o Brasil passou a ter conexão permanente com a Internet. Nesse período foi estruturada a hierarquia de nomes do .br, surgindo categorias como com.br, gov.br, org.br, net.br e mil.br. A ideia de separar os nomes por finalidade já fazia parte da arquitetura brasileira desde os primeiros anos.
A verdadeira transformação começou entre 1994 e 1995, quando a Internet começou a deixar o ambiente exclusivamente acadêmico e ganhar caráter comercial. A Embratel teve papel importante nesse processo. No final de 1994, lançou uma iniciativa de acesso comercial à Internet e, em abril de 1995, já havia empresas utilizando a estrutura experimental da companhia.
Em 31 de maio de 1995 foi criado o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, por meio da Portaria Interministerial nº 147. O novo órgão passou a coordenar, entre outras coisas, o sistema de nomes de domínio .br, enquanto a operação continuava sendo executada pela equipe da FAPESP.
E então veio um dos momentos mais importantes da história dos domínios brasileiros.
Em 17 de agosto de 1995, segundo registros históricos do CGI.br e relatos de Demi Getschko, foi registrado o primeiro domínio comercial brasileiro: cemig.com.br, da Companhia Energética de Minas Gerais.
Na época, domínio ainda não era tratado como um ativo digital da maneira como conhecemos hoje. Era principalmente uma identificação técnica necessária para empresas que começavam a entrar na Internet.
Mas a demanda cresceu rapidamente. Em janeiro de 1996 existiam 851 domínios registrados desde 1989. Em dezembro daquele mesmo ano, o número já havia ultrapassado 7.500. O registro manual já não era suficiente e o sistema começou a ser automatizado. Foi também nessa fase que começaram a aparecer os primeiros intermediários comerciais. Provedores de acesso e empresas especializadas passaram a oferecer registro de domínio junto com hospedagem, e-mail e criação de sites. Empresas como UOL, Mandic e Zaz estavam entre os provedores que ajudavam empresas e usuários a colocar seus sites no ar. O Registro.br e a FAPESP, por sua vez, permaneciam no centro da infraestrutura de registro dos domínios brasileiros.
Em 1996 surgiu a primeira regulamentação específica para o registro de domínios no Brasil, com o Ato Normativo nº 1 do CGI.br.
Em 1997 aconteceu outra mudança fundamental: o registro deixou de ser gratuito. O CGI.br decidiu cobrar pelo serviço para torná-lo autossustentável. Naquele momento, a cobrança era de R$ 50 pelo registro e R$ 50 por ano para manutenção.
Também havia fortes restrições. Inicialmente, o sistema permitia apenas um domínio por CNPJ. A lógica era, entre outras coisas, evitar o registro especulativo de nomes e o chamado cybersquatting. Em junho de 1997, o limite passou para dez domínios por CNPJ. Curiosamente, 1997 também foi o ano em que surgiram várias novas categorias brasileiras, como art.br, esp.br, ind.br, inf.br, psi.br, rec.br, etc.br e tmp.br.
O Brasil estava criando uma arquitetura própria de domínios, muito mais segmentada do que simplesmente oferecer o .com.br. A automatização mudou completamente a escala do mercado. O número de domínios saltou de aproximadamente 7.500 no final de 1996 para dezenas de milhares nos anos seguintes. Em janeiro de 1999, o Brasil já ultrapassava 70 mil domínios registrados.
No final dos anos 1990, a Internet brasileira entrou definitivamente na era comercial. Empresas e provedores passaram a oferecer registro de domínios, hospedagem, e-mail e desenvolvimento de websites para uma quantidade cada vez maior de clientes.
Em 1999, o sistema de registro já gerava recursos suficientes para produzir superávit, que posteriormente ajudaria a financiar iniciativas relacionadas à infraestrutura e ao desenvolvimento da Internet brasileira.
Em 2005 foi criado o NIC.br, que passou a concentrar a execução de diversas atividades relacionadas à Internet brasileira. O Registro.br tornou-se o departamento responsável pelo registro e manutenção dos domínios .br.
Em 2006, aproximadamente dez anos depois da grande expansão iniciada em 1996, o .br atingiu a marca de 1 milhão de domínios.
Em 2010 chegou a 2 milhões.
Em 2012 passou dos 3 milhões.
Em 2018, acrescentou mais 1 milhão de registros.
Mas talvez o aspecto mais interessante dessa história seja outro. O mercado brasileiro de domínios não nasceu propriamente como um mercado de ativos. Ele nasceu como infraestrutura técnica. No começo, um domínio era apenas uma maneira de identificar uma máquina ou uma instituição na rede. Depois passou a ser o endereço de uma empresa. Em seguida tornou-se parte da identidade de uma marca.
E, com a popularização da Internet, algumas pessoas começaram a perceber algo que hoje parece óbvio: determinados nomes digitais são escassos, memoráveis e podem ter valor econômico independentemente do website que estiver funcionando neles. É aí que começa uma outra história: a transformação do domínio de simples endereço técnico em ativo digital, marca, propriedade intelectual e, em alguns casos, objeto de negociação e especulação. Essa evolução ajuda a entender por que determinados nomes registrados há décadas podem valer muito mais hoje do que custavam quando foram originalmente registrados.
A história do mercado de domínios brasileiro, portanto, acompanha a própria evolução da Internet no país: de uma infraestrutura acadêmica restrita a uma gigantesca economia digital na qual um nome curto, memorável e estratégico pode se tornar um ativo valioso.

